marcar-conteudoAcessibilidade
Tamanho do texto: A+ | A-
Contraste
Cile Logotipo
Na prática

Como melhorar sua relação com o “TEMPO”

Para muitos, o ano passou rápido demais. Num piscar de olhos já iniciamos o mês conclusivo do significativo “Ano da Esperança e da Vitória” — tema da SGI de 2021. Parece consenso a percepção de que o relógio avança cada vez mais depressa, principalmente quando os últimos meses do ano se aproximam. Essa sensação de que estamos sempre atarefados, de que faltam horas no dia para fazer tudo o que gostaríamos tem sido objeto de estudo da ciência; e a maneira como as pessoas utilizam o precioso tempo desponta em diversas reflexões do presidente da SGI, Dr. Daisaku Ikeda. Desse modo, a seção Na Prática da edição indica como você pode melhorar sua relação com o “tempo”.

download do ícone
ícone de compartilhamento

01/12/2021

Como melhorar sua relação com o “TEMPO”

Percepção temporal

Há algumas hipóteses que explicam por que a percepção do tempo parece transcorrer apressadamente, e uma delas está relacionada com os avanços tecnológicos. Como vivemos num cotidiano cada vez mais acelerado, o estudo sugere que estamos nos distanciando de um suposto ritmo biológico natural. Conforme definição do psicólogo Tony Crabbe, autor de Busy: How to Thrive in a World of Too Much [“Ocupado: Como Prosperar em um Mundo de Excessos], passamos a viver no “mundo infinito”.1 Segundo Crabbe, com smartphones e computadores à disposição o dia inteiro sempre parece haver uma tarefa em aberto, e o cotidiano de trabalho começa a invadir até as horas de descanso. Mesmo nos momentos de “tranquilidade” existem diversas opções de entretenimento para ser consumidas, e a sensação de falta de tempo por não conseguir conferir tudo permanece. Esse descompasso é que daria a impressão de que o tempo está passando mais depressa, por isso a importância do uso comedido da tecnologia.

Outra hipótese está relacionada com a quantidade de experiências vivenciadas. Quando experimentamos algo novo, nossos sentidos ficam mais apurados e mais informações são lançadas em nossa memória.

A psicóloga britânica Claudia Hammond, autora de Time Warped: Unlocking the Mysteries of Time Perception [Tempo Retorcido: Desvendando os Mistérios da Percepção Temporal], chama esse fenômeno de Paradoxo das Férias. Ela ilustra o fenômeno com uma viagem. “Quando estamos viajando para algum lugar diferente, os dias são tão prazerosos que parecem passar muito rápido — quando chegamos a casa e refletimos sobre o que acabamos de viver, porém, aquele tempo parece muito mais longo. Eu fiz tudo aquilo em apenas uma semana? Parecia muito mais!”,2 afirma a britânica.

Dada as informações, uma maneira de ampliar a percepção do tempo é criar o máximo possível de novas memórias. Quanto mais os dias se sobressaem, com eventos diários desempenhados com intensidade, mais longos eles vão parecer quando analisados em retrospectiva.

Em conformidade com a abordagem da psicóloga Hammond, da perspectiva do budismo é possível melhorar nossa relação com o tempo ao criarmos a cada instante — seja de alegria ou de tristeza — oportunidades de aprendizado, além de realizarmos os compromissos do cotidiano com máxima sabedoria e vigor provenientes da prática budista. A partir disso, um novo estímulo para aprimorar e elevar a vida se estabelece, sempre do instante presente para o futuro.

Efeito borboleta

Os ensinamentos budistas nos ajudam a compreender que, pelo curso da vida, não podemos alterar os acontecimentos do passado, mas sim desenvolvermos a consciência de que somos capazes de aprender com eles, independentemente das circunstâncias enfrentadas. Uma obra cinematográfica de ficção científica ilustra muito bem esse raciocínio.

No longa-metragem, o protagonista sofre com eventos traumáticos de sua infância. Na vida adulta, descobre a habilidade de voltar no tempo e põe em prática essa competência com o objetivo de mexer no passado para modificar o futuro. O personagem volta aos acontecimentos mais caóticos tentando mudar a situação para melhor. Porém, todos os futuros alternativos criados são desastrosos. No final do longa, o protagonista entende a duras custas que não pode mexer no passado. Por outro lado, passa a ter mais prudência em suas atitudes e aprende a conviver, de modo positivo, com tudo o que vivera até então. O título do filme Efeito Borboleta faz alusão a um dos elementos-chave da teoria do caos, segundo o qual pequenos fatores podem provocar grandes transformações.3

A explicação da teoria está intimamente conectada ao pensamento budista de transformar qualquer condição deste exato momento. Vamos entender mais.

Podemos ressignificar o passado

O presidente Ikeda diz que cada dia tem sua importância para a construção do autoaprimoramento e da felicidade. Por essa razão, ele afirma que não devemos ficar totalmente presos ao que já aconteceu e que podemos, de fato, ressignificar até os acontecimentos do passado com o ato de desafiar a nós mesmos deste momento em diante.

No escrito Abertura dos Olhos consta: “Se deseja saber as causas que foram feitas no passado, observe os efeitos que se manifestam no presente. E se deseja saber os efeitos que se manifestarão no futuro, observe as causas que estão sendo feitas no presente”.4
O budismo ensina que a vida agora, neste momento, abarca todas as causas do passado e todos os resultados, ou efeitos, que se manifestarão no futuro. Essa “simultaneidade de causa e efeito” significa que a eternidade está contida neste momento. O ensinamento da Lei Mística, a rea­lidade dos “três mil mundos num único momento da vida”, elucida claramente essa lei maravilhosa da vida e do universo. (...)
É por isso que o momento presente é o que importa, e não algum dia no futuro. Precisamos nos esforçar sinceramente na fé, aprofundando nosso compromisso com a prática budista e transformar nosso destino exatamente aqui e agora. Esse é o caminho para acumular as causas para a felicidade, que também contêm o efeito ou resultado da felicidade.5

Ikeda sensei esclarece ainda como podemos aplicar isso no dia a dia:

Seja orando ao Gohonzon, se engajando no estudo do budismo ou escrevendo palavras de incentivo aos amigos — o crucial é devotar-se a essa atividade de forma plena e completa a cada momento.
Fazendo uma reflexão, a vida nada mais é do que o acúmulo de cada momento presente. [...] Pode fazer os maiores planos em longo prazo, mas se não valorizar cada momento, esses planos terminarão apenas como sonhos vazios. Causas passadas e resultados fu­turos estão todos contidos no “verdadeiro aspecto de todos os fenômenos” no presente momento, e a transformação de um único momento da vida pode extinguir os impedimentos cármicos do passado distante e também assegurar a boa sorte que se estenderá pelo eterno futuro.6

Ainda que os acontecimentos do passado possam nos causar dissabores, com a sabedoria decorrente da prática budista manifestamos serenidade para converter qualquer situação negativa de nossa vida em algo positivo.

Cada qual em seu tempo

Como vimos na ilustração, o protagonista do filme não consegue alterar os fatos do passado, mas sim aprender com eles e dar um novo significado para cada circunstância. Além desse entendimento, é importante ter a consciência de que todos nós estamos construindo a própria história, seguindo um ritmo e caminhos únicos.

O budismo ensina o princípio da “cerejeira, ameixeira, pessegueiro e damasqueiro”7. “A cerejeira possui sua beleza distinta, a ameixeira sua delicada fragrância. A flor do pessegueiro possui uma cor adorável e o damasqueiro causa admirável encanto.”8 Cada pessoa tem uma personalidade, um modo de vida singular e uma missão que é somente sua. Assim como na natureza — as flores desabrocham harmoniosamente cada qual em seu tempo —, temos nosso próprio ritmo, mesmo que seja mais intenso ou mais vagaroso que o de outras pessoas.

O presidente Ikeda nos aconselha a não nos comparar aos demais, pois assim poderemos viver com mais leveza e autenticidade.

Não devemos nos comparar aos outros. O importante é que nos empenhemos para ser, hoje, melhores do que ontem, e amanhã, melhores do que hoje — que avancemos, mesmo que pouco, mesmo que um único milímetro. Não avançar é retroceder. Como diz Nichiren Daishonin em sua famosa passagem: “Fortaleçam sua fé dia após dia e mês após mês. Se enfraquecerem em sua determinação, por pouco que seja, os demônios se aproveitarão”.9,10

Assentados nessa reflexão, listamos algumas recomendações para você compreender e aproveitar melhor seu tempo:

Pare de se comparar ao outro

Esse processo é até simples, mas não tão fácil de pôr em prática. Por isso, seja firme. Toda vez que algum pensamento de se comparar ao outro aparecer, tente afugentá-lo no mesmo instante. Lembre-se: cada jornada é única!

Valorize o agora

Como vimos no início da matéria, o tempo parece passar rápido demais. Então, aproveite o momento presente e cada passo que dá na construção de sua trajetória!

Conheça novas histórias

Todo enredo não é feito somente de êxitos. Desafios, frustrações e dores são realidades no percurso de todas as pessoas. Quando compartilhamos experiências, podemos aprender com os erros e nos inspirar com os acertos relatados.

Planeje o futuro

Respeitar seu tempo não significa que precisa estar “relaxado” e aproveitar o presente não é deixar de lado seus planos. Trace suas metas e sonhos a ser concretizados! Não é necessário ser algo longínquo, comece aos poucos, com objetivos de curto e médio prazos, por exemplo, o que você gostaria de concretizar em 2022.

O instante presente cria o futuro

Visto que entramos na reta final do ano 2021, agora é a ocasião propícia para analisar o que deu certo ao longo desse período, o que não foi tão bom assim e aprumar as ações para que os resultados futuros sejam excepcionais. Além disso, conforme mencionado no começo deste texto — o tempo parecer transcorrer apressadamente —, o presidente Ikeda diz que, mesmo com o ritmo de vida intenso, é importante contemplar a beleza da vida.

Mesmo atarefados, nunca deixemos de reservar um tempo para apreciar as flores, admirar os prodígios da vida e permitir que a beleza da natureza abrande o nosso espírito. Também precisamos ter tempo para ouvir música, ler livros ou escrever poesias. Se estivermos ocupados o tempo todo, a Soka Gakkai se transformará num lugar frio e insensível. O ideograma chinês que simboliza “ocupado” não é formado por dois componentes que significam “coração” e “ruína”? Se deixarmos que nosso coração se arruíne, não haverá desenvolvimento cultural. Calma em meio à atividade — equilíbrio é essencial para tudo; é importante manter um ritmo com mudanças ocasionais. Nossa mente será revigorada e nos encheremos de nova vitalidade. Por mais arduamente que trabalhemos, se nos permitirmos ficar igual a um elástico desgastado, não criaremos nada valioso. O budismo é um ensinamento que se manifesta na vida cotidiana.11

Com a prática budista, podemos manifestar profunda sabedoria e ressignificar eventos adversos, tornando-os a causa nascente de uma estrondosa vitória. Dessa maneira, todos os dias são tempo de criar uma história dourada. “Seja qual for o desafio, esforce-se pacientemente até obter resultados. Jamais perca a esperança. Saiba perceber o tempo que está vivendo. Saiba quando tem de criá-lo e quando tem de esperar o momento adequado. Eis a chave da vitória certa”.12

As ações firmes e determinadas das pessoas no momento presente são fator decisivo para delinear o futuro e a própria jornada. Sendo assim, não se compare a ninguém, observe com olhar de contemplação tudo que o está à sua volta e, dessa forma, faça de cada instante um momento inesquecível. Aproveite o “agora”, nele está contido todo o seu maravilhoso “tempo”.

Notas:

1. Disponível em: https://super.abril.com.br/comportamento/o-tempo-esta-passando-mais-rapido/ Acesso em: 11 nov. 2021.

2. Ibidem.

3. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/disciplinas/fisica/teoria-do-caos--a-historia-e-aplicacoes.htm?next=0004H158U144N Acesso: em 11 nov. 2021.

4. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Brasil Seikyo, v. I, p. 405, 2020.

5. Brasil Seikyo, ed. 2.314, 5 mar. 2016, p. B2.

6. Ibidem, p. B3.

7. Cf. Orally Transmitted Teachings [Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente]. Tradução: Burton Watson. Tóquio: Soka Gakkai, p. 220.

8. Brasil Seikyo, ed. 2.293, 26 set. 2015, p. B3.

9. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Brasil Seikyo, v. II, p. 262, 2017.

10. Terceira Civilização, ed. 447, nov. 2005, p. 39.

11. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 2, p. 205, 2019.

12. Cf. IKEDA, Daisaku. 365 Dias, Frases para Mulheres. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2019. p. 119.

Compartilhar nas