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Vencer no trabalho é prova da revolução humana

“Levar conforto para as pessoas que estão ao redor” é o que significa o termo “trabalho” em japonês. Isso mostra que existe outra forma de encará-lo, muito além das cobranças e obrigações. A matéria parte do contexto brasileiro atual e traz uma coletânea de orientações práticas1 do presidente Ikeda que são úteis tanto para quem batalha por uma vaga como para quem luta para mantê-la, e ainda para aquele que cria a própria vaga a partir do zero.

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11/08/2018

Vencer no trabalho é prova da revolução humana
“Há realmente muitas alegrias para encontrar neste mundo...! Você apenas deve se tornar competente para encontrá-las, pois com certeza elas existem.”2 No século 18, o jovem Johann Wolfgang von Goethe ouviu sua mãe, Katharina Elisabeth Goethe, dizer essas palavras.

Apesar de ser formado em direito e ter oportunidades de trabalho na política, a verdadeira paixão de Goethe era escrever — o que ele fez durante toda a sua vida. Foram os frutos gerados por esse esforço constante e sincero que fizeram dele o mais importante escritor alemão, com obras que influenciam autores e pensadores mundiais até hoje.

Assim como afirma Ikeda sensei, “O esforço é a ponte que liga o sonho à realidade”.3 Para nós, é mais fácil aplicar essa frase à vida de grandes personalidades, como Goethe ou o próprio presidente Ikeda, pois eles conquistaram seus sonhos. O desafio é aplicarmos essas palavras em nossa vida numa segunda-feira de manhã, quando enfrentamos trânsito ou condução cheia para ir ao trabalho, ou quando não há vagas de emprego, não o chamam para entrevistas ou os clientes não aparecem.

No Brasil, especificamente, vivemos um contexto bastante instável, com indicadores tendendo para o negativo. Isso aumenta a insegurança tanto de quem não tem emprego como de quem luta para mantê-lo. Desanima também muitos jovens, principalmente aqueles com menos oportunidades de estudo e de formação.

Essa situação não é novidade e faz muitos brasileiros migrarem para o trabalho informal ou o autônomo, que são opções bastante incertas. Se dependermos apenas do contexto externo, ficaremos nessa montanha-russa sem previsão de melhora.

Nesses momentos, principalmente, precisamos buscar orientações com quem já passou por isso e venceu, a fim de saber qual caminho seguir para construir um estado de vida que não se abale com as condições externas. Acima de tudo, extrair o melhor das situações.

Felizmente, temos nosso mestre de vida, que é assim chamado porque já passou por muito do que enfrentamos agora, conseguiu aplicar os ensinamentos de Nichiren Daishonin no dia a dia, e se dedica a mostrar para todos o caminho que percorreu: “Mestre é quem nos ensina como aplicar o budismo corretamente na vida e assim viver uma existência significativa” (TC, ed. 598, jun. 2018, p. 26).

Como se recebêssemos o presidente Ikeda em nossa casa, vamos nos acomodar e abrir o coração para as orientações do Mestre sobre esse tema tão complexo: o trabalho. Com o desafio de que você possa se inspirar a partir dessas palavras, expandir a visão sobre o assunto e renovar a determinação de vencer, não importando a situação em que se encontre neste momento, a TC apresenta a primeira parte do material em forma de perguntas e respostas.

Qual é a visão do presidente Ikeda sobre trabalho?

Eu trabalhei a vida inteira. Ainda garoto, trabalhei muito. Meu pai sofria de reumatismo que o debilitava e meus quatro irmãos mais velhos foram convocados um após outro para servir ao exército. Sendo o filho mais velho a ter ficado, eu me levantava antes do alvorecer e ajudava no negócio de cultivo de algas marinhas da família. Ao terminar, saía para entregar jornais. Quando voltava para casa depois da escola, fazia a entrega de um jornal noturno. O verbo em japonês que designa “trabalhar” (hataraku) significa originariamente “levar conforto” (raku) para as “pessoas que estão ao redor” (hata). Sentia a verdade dessas palavras desde bem jovem.

Também era meu trabalho entregar algas marinhas, que minha família coletava, ao atacadista. Lembro-me de que lhe dizia, com orgulho: “As algas marinhas de minha família são as melhores”. Ele respondia: “São, sim, com certeza!”.

O que preciso fazer para ser um profissional valorizado e respeitado?

Durante a Segunda Guerra Mundial, eu trabalhava com um martelo e um torno mecânico na Siderúrgica Niigata, em Kamata, no bairro de Ota, Tóquio, Japão. Era um trabalho exaustivo. Com o término da guerra, consegui emprego numa gráfica chamada Shobundo, na área de Nishi-Shinbashi, em Tóquio, e estudava à noite. Costumava sair de casa às 6h30 da manhã, visitava os clientes para fechar os pedidos, e também era responsável pela revisão de texto. Eu me dediquei ao máximo àquele trabalho. O escritório tinha uma atmosfera calorosa e familiar. Recordo-me com carinho de um dos veteranos dizendo-me que era importante assumir riscos na vida e que a coragem era essencial. O dono da empresa, Takeo Kurobe, era muito bom para mim. Infelizmente, tive de parar de trabalhar por causa da minha saúde fraca. Todos manifestaram quanto estavam tristes por me ver partir.

Depois, fui trabalhar como escrevente na Associação dos Operários de Kamata, que ficava perto de casa. O escritório era pequeno, mas estava engajado em realizar um trabalho significativo, ajudando a revitalizar os negócios locais e também as empresas de pequeno e médio portes da área. Então, conheci Josei Toda e logo comecei a trabalhar na editora dele, a Nihon Shogakkan. Jamais me esquecerei da sincera ajuda que recebi dos meus colegas da Associação dos Operários quando saí de lá para trabalhar com o Sr. Toda.

É com orgulho que, quando jovem, fosse qual fosse meu trabalho e onde quer que estivesse trabalhando, sempre dava o melhor de mim. Nichiren Daishonin cita um comentário que o grande mestre Tiantai fez sobre o Sutra de Lótus: “Nenhum assunto secular, da vida ou do trabalho, difere de forma alguma da realidade fundamental” (CEND, v. II, p. 394). Essa passagem expressa o benefício recebido por aqueles que abraçam o Sutra do Lótus. Não há nada na sociedade nem na vida diária que seja contrário ao verdadeiro aspecto da vida. Embora nossos esforços pareçam comuns, por estarmos embasados na fé, eles brilham com a luz da Lei Mística.

Não há nada mais nobre que se empenhar para tornar o mundo um lugar melhor. Não há necessidade de se preocuparem excessivamente com o tipo de trabalho que realizam, com o tamanho da empresa em que trabalham nem com o cargo que ocupam. As pessoas que recitam Nam-myoho-renge-kyo e se esforçam todos os dias para contribuir para a sociedade estão seguindo o correto caminho para atingir o estado de buda nesta existência.

No budismo, há a frase:

“Na prática da fé, empenhe esforços por uma pessoa; no trabalho, empenhe esforços por três”.4 O que isso significa na prática?

Se você se empenhar três vezes mais esforços do que comumente despende, irá se tornar a força motriz para o crescimento e para a melhoria tanto no local de trabalho como na comunidade onde mora. A fé é o que lhe permite agir assim.

O que significa “se empenhar três vezes mais” no dia a dia?

Comecem com a oração e então realizem esforços que estejam de acordo com suas orações. É isso o que significam as palavras “a fé se manifesta na vida diária”. Todo tipo de trabalho requer seu próprio aprendizado e treinamento.

O Sr. Toda também era muito rigoroso. Como funcionários da empresa dele, algumas vezes tínhamos de sair a trabalho durante o dia. Sempre parecia que ele não prestava atenção às nossas idas e vindas, mas prestava sim. E se alguém voltava tarde, ele gritava: “Você está atrasado! Ficou enrolando por aí?!”

Certa vez, quando retornei ao escritório após buscar o manuscrito de um escritor, Toda sensei me pediu que descrevesse o conteúdo. Esse pedido inesperado fez com que eu começasse a transpirar de nervoso. Ele queria me mostrar com isso que eu deveria ter aproveitado o período que passei no trem de volta para o escritório verificando o manuscrito para começar a formar uma opinião sobre ele. Estava me ensinando a não desperdiçar tempo e a trabalhar com rapidez e eficiência.

Qual é o segredo para ser bem-sucedido?

[Josei Toda] era rigoroso, mas sempre correto. O trabalho molda nosso caráter. Para os jovens, o local de trabalho é uma arena importante para a revolução humana. Aqueles que conseguem enxergar com esse sentimento são fortes. Em seus escritos, Nichiren Daishonin também ensinou ao seu jovem seguidor Nanjo Tokimitsu a importância da atitude com relação ao trabalho. Ele escreveu, por exemplo: “Ser leal ao seu lorde significa que a pessoa não tem nada do que se envergonhar por prestar serviço a ele. (...) Pois embora a lealdade da pessoa possa não ser notada à primeira vista, com o tempo ela será abertamente reconhecida” (WND, v. II, p. 636).

Por favor, não se comportem de maneira que se arrependam depois. Sejam sempre sinceros e honestos, mesmo que ninguém note seus esforços. Essa é a chave para serem bem-sucedidos. Aqueles que sempre se empenham para dar o melhor de si no trabalho, independentemente de qual seja sua posição, conquistam o maior tesouro de todos — a confiança dos outros.

O que fazer quando as coisas não saem como o esperado?

Quando era jovem, sofri o colapso das empresas de Toda sensei. No período de confusão econômica após a Segunda Guerra Mundial, muitas companhias de pequeno e médio portes foram à falência. Eu tinha 20 e poucos anos. Sei muito bem como é difícil quando uma empresa vai à falência. No entanto, eu me levantei e fiz com que as enormes dívidas das empresas do Sr. Toda fossem pagas. Trabalhei muito e consegui transformar totalmente a situação de acordo com o princípio budista da “transformação do veneno em remédio”, abrindo assim o caminho para que Toda sensei assumisse como segundo presidente da Soka Gakkai (em maio de 1951). Eu me empenhei incansavelmente, vivendo a passagem de o Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente, que diz: “Num único momento de vida, nós esgotamos as dores e os sofrimentos de milhões de kalpa” (OTT, na sigla em inglês, p. 214).

Como dedicar o meu melhor, mesmo estando num ambiente instável e desafiador?

A situação atual é extremamente dura, em especial para os jovens. Com a nítida diminuição da abertura de postos de trabalho em tempo integral, as coisas são muito diferentes do que há apenas vinte ou trinta anos. Além de realizar esforços individuais, precisamos também avaliar e mudar a condição da sociedade. Imagino as desesperadas batalhas diárias enfrentadas pelas pessoas que dirigem o próprio negócio. Estou constantemente orando para que as forças protetoras do universo ajudem e apoiem essas pessoas.

Nichiren Daishonin escreveu: “O ferro, quando aquecido e forjado, torna-se uma excelente espada” (CEND, v. I, p. 320). Ele também afirmou: “Quando uma rocha é submetida ao fogo, ela simplesmente se transforma em cinzas, mas o ouro se torna ainda mais puro” (Ibidem, p. 520). Cada esforço que realizarmos agora consequentemente se tornará nosso maior tesouro. Enfrentar e vencer a adversidade faz com que nossa vida brilhe como uma espada preciosa ou como o ouro puro.

Certa vez, um jornalista perguntou a Alexander Graham Bell (1847–1922), a quem muitos atribuem a invenção do telefone, sobre qual era a dificuldade de seu trabalho. Ele respondeu: “É um trabalho muito árduo e constante. Mas também é meu prazer”.5 Quando se trata de solucionar problemas, não existe uma solução pronta e mágica. A única coisa a fazer é orar com toda a seriedade, esforçar-se e vencer firmemente cada obstáculo, um após outro. O mesmo é válido para o local de trabalho. No final, conseguimos transformar tudo em algo bom e positivo. É isso o que quer dizer “prática da fé para conquistar a vitória total”.

A ponte entre o sonho e a realidade

Ao se permitir estar em diferentes ambientes e dedicar o melhor de si a distintas ocupações, o presidente Ikeda conseguiu encontrar o caminho da realização pessoal e profissional. Assim como Goethe, independentemente do que acontecesse, ele se esforçou até encontrar aquilo que realmente queria fazer e a partir desse momento se empenhou ainda mais nessa jornada.

A diferença entre a jornada dos dois está na prática budista que permitiu a Ikeda sensei expandir seu estado de vida ao longo dos anos e inspirar e ajudar muitos outros a fazer o mesmo.

Nesta primeira parte da coletânea de orientações, fica claro que não foram situações de acaso ou privilégio, mas sim o grande esforço que construiu a “ponte entre o sonho e a realidade” do presidente Ikeda. Vale refletir até que ponto estamos realizando esforços proporcionais às nossas orações e nossos objetivos. Quando nos dedicamos a oferecer o melhor e nos permitimos ser treinados a cada dia pelos acontecimentos e pelas pessoas, entendendo cada desafio e obstáculo como parte desse treinamento para nosso crescimento pessoal e profissional, nós nos destacamos e inspiramos os que estão à nossa volta a fazer o mesmo.

Diante dos desafios da sociedade brasileira, temos a missão de transformar nossa vida e mostrar aos demais que, não importando a situação em que se encontrem, a “transformação do veneno em remédio” é possível. Assim como o próprio presidente Ikeda fez, na sua época.

Continua na próxima edição.

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