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Reflexões Sobre a NRH

[91] Recordações do meu irmão mais velho, Kiichi, ao ser enviado para a guerra

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01/03/2022

[91] Recordações do meu irmão mais velho, Kiichi, ao ser enviado para a guerra

Recentemente, em um lindo dia [24] de maio, foi realizada uma reunião de líderes de regional em comemoração do 70o aniversário de fundação da Soka Gakkai, no Auditório Memorial Makiguchi de Tóquio.

A imagem dos nossos companheiros, que se dedicam diligentemente a atingir o nobre objetivo do kosen-rufu, era tão revigorante e inspiradora que é difícil descrever em palavras.

Como são grandiosos seus incríveis esforços para promover nosso movimento, seu espírito de luta audaz para navegar em meio a intensas tempestades, sua forte oração e suas ações comprometidas para derrotar por completo os inimigos do Buda, embasados nos princípios eternos e no poder invencível da Lei Mística!

Nessa ocasião, um grande número de membros estrangeiros, provenientes de treze países e territórios, juntaram-se a nós, brilhando com a energia e com o nobre espírito da devoção abnegada.

Nossas metas são a paz, o progresso e a felicidade da humanidade.

O coração de todos nesse dia estava repleto da incontida alegria dos budas.

***

Depois da reunião, minha esposa e eu contemplamos uma colina em frente do Auditório Memorial Makiguchi, a qual chamamos de Colina do Luar, e conversamos sobre muitos assuntos até chegar a uma carta que eu havia recebido de um dos meus professores da escola elementar, trazendo de volta algumas lembranças da minha juventude.

Em 1937, eu tinha 9 anos. Meu pai finalmente havia acabado de se recuperar de uma longa e severa crise de reumatismo e meu irmão mais velho havia sido recrutado pelo exército. Ele se chamava Kiichi e era doze anos mais velho que eu. Estava com 21 anos quando foi convocado para o serviço militar. Meu irmão era muito sério e sincero, e eu tinha por ele um grande respeito. Enquanto nosso pai esteve doente, Kiichi trabalhou arduamente para nos sustentar, passando a ser o pilar da nossa família.

Primeiro ele e, em seguida, meus outros três irmãos mais velhos — todos na fase mais promissora da vida — nos foram arrebatados pelo exército. Consequentemente, a responsabilidade de cuidar dos nossos pais idosos recaiu sobre mim, na época extremamente fraco e sofrendo de tuberculose. A doença do meu pai também persistia. Que alto preço o nacionalismo cobra do povo!

No início da primavera de 1939, dois anos após ter sido recrutado, Kiichi foi enviado para lutar no exterior. Recebemos a notificação do exército de que poderíamos vê-lo antes de embarcar. Então, minha mãe e eu corremos para a estação ferroviária de Tóquio. Eu estava no quinto ano escolar. Minha mãe preparou bolinhos de arroz para ele — um verdadeiro banquete em tempos de guerra — os quais ela envolveu em folhas de algas marinhas com todo o carinho porque, como ela mesma disse, “nós não o veremos por um bom tempo”.

Quando chegamos à estação, havia aproximadamente trezentos soldados que iriam para a frente de combate. Seus familiares se reuniam com eles numa área aberta diante da estação. Eles comiam e conversavam, procurando desfrutar aquele momento ao máximo, pois sabiam que poderia ser a despedida definitiva. Os olhos de muitas mães e jovens esposas estavam marejados.

A partida dos soldados havia sido decidida tão de repente que os familiares daqueles que provinham de regiões remotas de Tóquio, como Yamagata e Akita, não conseguiram chegar a tempo para se despedir. Eu ainda me lembro perfeitamente dos soldados uniformizados, sentados ao chão do lado de fora da estação, calados e com os ombros arquea-
dos. Minha mãe convidou vários deles a se juntar a nós, e me pediu que levasse alguns bolinhos de arroz aos que pareciam tímidos demais para aceitar o convite. O semblante tristonho dos soldados se iluminou e eles até começaram a sorrir e a conversar de forma amigável enquanto saboreavam a comida simples, porém feita com todo o carinho por minha mãe.

***

O doloroso momento da partida havia chegado. Meu irmão amarrou com mais força o cadarço das botinas, checou a espada presa ao cinto e voltou para ficar com seu pelotão. Minha mãe e eu, com o coração despedaçado, retornamos de trem até a Estação de Shinagawa a caminho de casa. Permanecemos na plataforma na esperança de que o trem que levava meu irmão passasse pela estação. Até que um comboio cheio de soldados se aproximou.

Minha mãe correu de janela em janela à procura do meu irmão, mas não conseguiu vê-lo. Então, um funcionário idoso da estação dirigiu-se a nós e, compreendendo a situação, pegou o megafone e começou a chamar bem alto: “Sr. Kiichi Ikeda... O Sr. Kiichi Ikeda está aqui? Sua mãe quer vê-lo”. Ele percorreu a plataforma de ponta a ponta.

Quando o trem se preparava para partir, um dos companheiros do meu irmão ouviu o chamado. Acredito que ele era um dos rapazes de Yamagata com quem havíamos divido os bolinhos de arroz. O jovem correu até meu irmão, que estava sentado do outro lado do trem, e disse: “Kiichi, é sua mãe!”.

Enquanto isso, o trem começou a se mover lentamente. Meu irmão correu até a janela e inclinou-se ao máximo para vê-la.

“Kiichi, Kiichi, cuide-se bem!”, dizia minha mãe enquanto corria para acompanhar o trem, que começara a acelerar. Meu irmão assentiu em silêncio e acenou vigorosamente.

Minha mãe e eu continuamos ali com os braços estendidos bem alto, dando adeus a Kiichi até o trem se perder de vista.

***

Em 1941, Kiichi obteve uma licença temporária na China e voltou para casa. Foi quando me disse com a voz trêmula de ira: “Não há palavras para descrever a crueldade do Exército japonês”.

Meu pai fez uma observação, em particular, para minha mãe: “Nós não sabemos quando ele será enviado de volta para o campo de batalha. Ele deveria pensar em se casar enquanto tem chance”. Ele disse a Kiichi: “Como primogênito, você deve escolher uma esposa. O que você acha?”. Essa preocupação começou a estender-se à família. Mas, no Japão, na época completamente dominado pelo militarismo, um casamento feliz era algo impensável. A todos era ensinado que a maior honra era lutar e morrer heroicamente pela pátria.

No ano seguinte, Kiichi foi convocado novamente. Do campo de batalha, ele escreveu em uma carta: “Como filho de um coletor de algas marinhas [e, portanto, acostumado a trabalhar em baixas temperaturas], esperava ser enviado para um lugar frio, mas quis o destino que fosse enviado para a Birmânia tropical!”. Quando me lembro dessas palavras, sinto novamente uma terrível angústia.

Tempos depois, Kiichi tornou-se uma das vítimas da Campanha Imphal [tentativa fracassada do Japão de dominar Imphal, ao noroeste da Índia, através da Birmânia (atual Mianmar), durante as etapas finais da Segunda Guerra Mundial], famosa por ser uma das piores operações concebidas pelos militares japoneses. Ele morreu na Birmânia em janeiro de 1945 com apenas 29 anos.

Abomino a guerra! Sou totalmente contra a guerra!

Muitos jovens de minha geração foram incentivados pelo governo militar a ir orgulhosamente para as frentes de batalha e a dar a própria vida. Os familiares que ficavam eram louvados pelo sacrifício dessas vidas como “mães militares” e “famílias de soldados em combate” — termos considerados como títulos honoríficos. Mas, na realidade, quanta dor, tormento e sofrimento isso não causou ao coração daquelas pessoas! Como eram profundas as feridas provocadas pelos falsos louvores e pela falsa comiseração daqueles que não compreendiam essa angústia interior infligida às mães e aos filhos abandonados!

O amor e a sabedoria de uma mãe são grandes demais para ser enganados por frases falsas, tais como “pelo bem da nação”.

Durante a guerra, todas as estações do ano pareciam inverno. Quando finalmente o conflito terminou, um novo sol com seus raios de paz começou a despontar no horizonte — sereno, porém, brilhando com intensidade.

No dia 15 de agosto, ouvi pelo rádio o imperador anunciar o fim da guerra. Estava na casa de parentes em Magome, bairro de Ota, em Tóquio, onde havíamos nos refugiado. Tinha na época 17 anos. Os complexos sentimentos daquele momento permanecem gravados indelevelmente em meu ser.

Eu me oponho totalmente à guerra. Por essa razão, respeito altamente Makiguchi sensei e Toda sensei, que foram presos pelo governo militar, e os considero autênticos defensores da verdade e da justiça. Eis por que prontamente me tornei discípulo desses grandes mestres da Soka Gakkai.

Acima de tudo, sinto orgulho de seguir os passos desses dois presidentes que deram a vida abnegadamente por sua fé em Nichiren Daishonin, o Buda da paz eterna.

Estou decidido a lutar contra qualquer um que apoie ou defenda a guerra. Combaterei as forças destruidoras e obscuras do mal! Um batalhão de 10 milhões de budas armados com a força de seu espírito e comprometidos com a causa da paz duradoura e genuína se une a mim nessa luta.

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