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O princípio humanístico (introdução, parte 2)

Diálogo sobre saúde, compaixão e tolerância

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04/12/2020

O princípio humanístico (introdução, parte 2)

Diálogo sobre filosofia, religião e ciências naturais

Unger: Outra função relacionada com nossa academia [Academia Europeia de Ciência e Arte] é a busca por elementos comuns fundamentais entre diferentes campos de estudo. Nossos filósofos e cientistas naturais declaram prontamente esse compromisso. Encontrar denominadores comuns é a tarefa mais nobre da ciência. A tecnologia genética é um ramo da ciência contemporânea que implica consequências mais radicais em termos sociais, éticos e antropológicos, mas também oferece sugestões especialmente poderosas. Enquanto médico, ocupo-me de temas que se referem a quando a vida se inicia e termina, e, em tais questões, a tecnologia genética possui importante papel.

Ikeda: O budismo é, essencialmente, uma investigação de questões fundamentais da vida e da morte e uma busca por caminhos para lidar com os sofrimentos que surgem delas. Tanto Shakyamuni como Jesus compararam seu papel, enquanto salvadores, com o do médico. As escrituras budistas falam de Shakyamuni como “exímio médico”; um médico da vida em si. Pelo fato de a doença ser uma manifestação das funções da vida, tanto a sabedoria da religião como a da ciência médica devem se beneficiar mutuamente. O diálogo sobre essa ciência e a religião é indispensável para tratar das questões da engenharia genética e da ética da vida. Mais tarde, gostaria de aproveitar a ocasião para me referir à grande experiência do senhor enquanto cirurgião cardiovascular.

Unger: A necessidade de diálogo não está limitada às disciplinas acadêmicas. Atualmente, a quantidade de informações disponíveis e compartilhadas aumenta, bem como a rapidez de sua difusão, e o diálogo se torna mais essencial que nunca. As culturas estão conectadas, independentemente se temos consciência delas ou se gostamos disso ou não. Essa característica nos possibilita intercâmbios ainda mais profundos. O interessante sobre debates intercontinentais é como eles nos permitem comparar nossas formas tradicionais de pensar com as de outras pessoas. E tais comparações genuínas sempre revelam mais pontos em comum que diferenças. Eu diria que podemos reiterar que somos iguais em muitos aspectos.

Ikeda: Estou plenamente de acordo. Pessoas que cresceram em meio a diferentes tradições filosóficas deveriam, por meio do diálogo, se dedicar a descobrir mais semelhanças que disparidades. Até hoje, realizei mais de 1.600 diálogos com líderes e pensadores de distintas religiões e filosofias, incluindo cristianismo, islamismo e hinduísmo. Uma convicção que obtive como resultado [desses diálogos] foi a possibilidade de formar laços significativos de amizade com pessoas de todas as tradições espirituais. É aqui que reside minha convicção inabalável no humanismo universal.

Isso se aplica ao diálogo inter-religioso. Com seu longo histórico, as religiões mundiais compartilham muitos elementos fundamentais. Em abril de 2002, encontrei-me com Abdurrahman Wahid, ex-presidente da Indonésia e líder da maior organização islâmica do país. Nós concordamos que todas as religiões existem em prol da felicidade humana e por isso elas deveriam cooperar em nome da paz, sem que isso comprometesse suas doutrinas.

Unger: Sim. Apesar de se diferenciarem em alguns pontos, todas as religiões dividem a mesma esperança pela paz da humanidade.

Ikeda: Na Cúpula do Milênio das Nações Unidas, no outono do ano 2000, o presidente Wahid disse que o diálogo pode conferir um aspecto humano, independentemente das diferenças étnicas, culturais e contextos históricos, e serve de base para a promoção de valores comuns e do compromisso pela cultura global de paz e harmonia.1

O diálogo é o caminho que melhor nos ajuda a descobrir nossa humanidade compartilhada e a retornar aos valores universais.

Unger: Enquanto médico, percebi que os seres humanos ao redor do mundo são fisiologicamente muito similares. A essa fisiologia impomos violentas diferenças culturais e religiosas. Mas dadas as similaridades do nosso corpo, não estaríamos nos enganando ao definirmos diferenças culturais e religiosas como divergências básicas?

Ikeda: A identidade fisiológica é uma igualdade humana que transcende origem e grupo étnicos. A tecnologia genética recentemente nos mostrou que as diferenças na disposição do DNA humano não são superiores a 0,1%. E mais, assim como insiste o Dr. M. S. Swaminathan, renomado agrônomo indiano e ex-presidente das Conferências de Pugwash, seres humanos e plantas se assemelham muito geneticamente. Em resumo, ele conclui que a genética moderna confirma a unicidade de toda vida na Terra.

Unger: A sabedoria científica sugere que devemos buscar elementos comuns e equivalências em diferentes continentes e em diferentes culturas e religiões.

Diálogo inter-religioso como batalha espiritual

Unger: O diálogo amplia nossos horizontes por nos chamar a atenção para a experiência de outras pessoas. Mas isso é mais difícil de fazer com a religião do que com as ciências. Nas ciências naturais, mensurações podem ser comparadas para fornecer uma base confiável. Um quilo de pão é sempre um quilo de pão. Mas o pão espiritual não pode ser comparado de forma tão fácil. Ainda que seja tão importante quanto o primeiro, ele não pode ser aferido e vendido. Por colocarmos muita fé no pão concreto, pouco a pouco, o material ganha vantagem sobre o espiritual até que, por fim, temos um capitalismo no qual a humanidade se degenerou metafisicamente. Como consequência, o meio se tornou o objetivo em si. Eu me oponho a isso porque o capital não pode ser considerado indicador do valor da vida.

Ikeda: A Academia Europeia de Ciência e Arte ministrou um curso sobre o diálogo entre budismo e cristianismo como forma de combater o materialismo e publicou relatórios a respeito deles em alemão e em inglês. Ela também realizou diálogos entre representantes das quatro grandes religiões — cristianismo, islamismo, judaísmo e budismo. O significado desse grande esforço espiritual certamente se tornará histórico. Em resposta à solicitação do senhor, por três anos a partir de 1997, a SGI participou de seis simpósios organizados pela academia.

Unger: Apesar das diferenças no âmbito dos sistemas de pensamento, como os existentes entre a sabedoria budista e a revelação cristã, esses seis simpósios foram bem-sucedidos em apurar pontos comuns dessas duas religiões, que podem ser aplicados a fim de triunfarmos sobre os problemas que a humanidade confronta. Devemos construir pontes.

Semelhanças entre budismo e cristianismo

Ikeda: Cristianismo e budismo compartilham muitos aspectos em comum. Primeiro, ambos são religiões salvacionistas. A compaixão budista e o amor cristão buscam, de forma semelhante, a salvação da humanidade. A missão do budismo é a salvação da humanidade por meio da compaixão que transborda da força vital cósmica e se manifesta nos seres humanos. Mesmo diante da opressão, Shakyamuni e seus discípulos viajaram por toda a extensão da Índia encorajando pessoas comuns.

Unger: O cristianismo ensina o amor de Deus e luta para incutir o amor ao próximo. Jesus Cristo e seus discípulos sofreram opressão e adversidades enquanto ensinavam às pessoas. Jesus disse: “Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” (Mateus, 5:44). Desse modo, ele ensina o amor para toda a humanidade.

Ikeda: Um segundo ponto em comum é que tanto o cristianismo como o budismo indicam caminhos para iluminar os sofrimentos humanos e direcionar as pessoas à verdadeira felicidade. O budismo identifica a ignorância inata e fundamental sobre a verdadeira natureza da vida como a causa básica do sofrimento. O cristianismo vê o pecado original como a fonte de toda infelicidade. Ambos postulam uma dimensão eterna da vida na qual a causa dos sofrimentos é revelada, e a verdadeira felicidade, atingida.

Unger: Assim como o senhor destacou, por mais que a base filosófica para explicar tais pontos possam diferir, tanto o cristianismo como o budismo focam no percurso da vida: nascimento, envelhecimento, doença e morte.

Ikeda: A terceira característica compartilhada entre elas é o ensinamento sobre a dignidade humana e a dimensão sagrada da vida. O budismo ensina que a força vital cósmica transcendental é inerente a cada vida individual como a natureza de buda, e a dignidade da vida e de toda a humanidade deriva de sua manifestação. Na civilização global do futuro, essa dignidade deve se tornar a base da ética e um critério de valor.

Unger: Pela visão cristã, a dignidade humana deriva do fato de termos sido criados à imagem e semelhança de Deus. Apesar de suas diferenças, budismo e cristianismo convergem em certos pontos que transcendem problemas atuais; por exemplo, [os relacionados a] direitos humanos, sistemas de valor e meio ambiente global.

Ikeda: Quando nos encontramos, em julho de 2001, o senhor propôs expandir o diálogo entre budismo e cristianismo para incluir as quatro principais religiões: essas duas mais judaísmo e islamismo. Fui totalmente de acordo. Os representantes da SGI participaram da primeira das conferências expandidas, no dia 15 de setembro de 2001, pouco depois dos inesperados ataques terroristas nos Estados Unidos.

Unger: Os ataques foram um grande choque. Originalmente, o tema da conferência deveria ser a ética da vida. Mas, no início da reunião, eu disse que os ataques perpetrados quatro dias antes aumentaram o perigo de um conflito global. Tendo essa emergência como cenário, propus que os representantes das quatro religiões considerassem o tópico da destrutividade e agressividade inatas ao ser humano. Eles assim o fizeram. Depois de um intenso debate, chegaram a um consenso de que a retribuição militar violenta deve ser evitada e que o diálogo é a forma de impedir a guerra.

Ikeda: Sou grato pela sábia liderança que o senhor demonstrou nessa época. Tenho ciência de que o Dr. Norbert Göttler, teólogo e jornalista, expressou a opinião de que o budismo pode facilitar o diálogo entre cristianismo e islamismo. Essas conferências entre as quatro grandes religiões foram realizadas nos anos seguintes também, e produziram resultados significativos e positivos.

Cooperar para salvar

Unger: Na Europa, a forte, e por vezes crítica, secularização marginaliza a religião. Como resultado, as igrejas europeias não têm mais a voz que tinham antes. De forma alguma considero a secularização um infortúnio. Vejo oportunidades nela. Por exigir que as igrejas se justifiquem, ela evita grande parte do lastro dogmático do passado. Somente ao mostrarem que estão propícias à coexistência humana harmoniosa é que as igrejas podem se legitimar.

Ikeda: O senhor descreveu o que devemos exigir da religião no século 21. A linha vital da religião é a empatia e a cooperação em superar sofrimentos. Em uma escritura budista, Vimalakirti, seguidor leigo [do buda Shakyamuni], afirmou o seguinte sobre a causa de sua doença: “Como todos os seres vivos estão doentes, eu também estou”.2 Nichiren Daishonin também declarou: “Os vários sofrimentos pelos quais qualquer ser vivo passa, todos eles são os próprios sofrimentos de Nichiren”.3 O espírito de aceitar o sofrimento dos outros como o próprio é certamente a força motriz que impulsiona os diálogos inter-religiosos, ultrapassa diferenças e constrói uma sociedade simbiótica.

Aurelio Peccei, cofundador do Clube de Roma, e eu discutimos a possibilidade de uma cooperação religiosa global. Ele lançou a questão urgente: “Alguma dessas grandes religiões alguma vez clamou às outras para que trabalhassem juntas e aprendessem juntas como direcionar a população mundial para longe do atual tormento, rumo à salvação terrestre, antes que seja tarde demais?”.4

Unger: Quais são os principais pensamentos do senhor sobre os objetivos do diálogo inter-religioso atualmente?

Ikeda: Como uma confirmação do conteúdo de nossa discussão até agora, devo citar o seguinte: primeiro, as religiões devem promover a compreensão mútua entre si. Esse é o primeiro estágio da tolerância. Se, enquanto mantêm seus sistemas de fé e de filosofia característicos, as religiões tentarem entender umas às outras, elas serão capazes de descobrir muitos aspectos que compartilham em comum.

Unger: Já vimos que cristianismo e budismo possuem elementos comuns.

Ikeda: Sim. O segundo objetivo do diálogo inter-religioso deve ser o aprendizado mútuo entre as religiões e uso dessas lições para posterior autoaprimoramento. Todas as religiões devem se desenvolver em resposta a outras filosofias e religiões, o espírito da época e as condições globais.

O terceiro objetivo é, assim como Peccei ressaltou, que todas as religiões “trabalhem e aprendam juntas sobre como guiar a população mundial para longe do atual tormento”. Nosso atual tormento pode ser descrito em três tipos de relações — da maneira como o senhor pontuou, elas são: a relação entre o ser humano e a natureza, a relação entre os seres humanos e a relação entre o humano e o espiritual. O primeiro conjunto de problemas pertence às relações entre a humanidade e o ambiente natural na esfera da ecologia: a destruição do equilíbrio ecológico, representada da forma mais dramática pelo aquecimento global. Em seguida, temos o problema dos humanos com seus semelhantes nas esferas política e econômica, incluindo as armas nucleares, os conflitos e as guerras; a disparidade econômica e a pobreza; os direitos humanos e o terrorismo, o qual está intimamente relacionado [a tais questões]. No centro disso, a terceira categoria envolve o declínio e o colapso espiritual humano, aparentes por meio de fenômenos como apatia, surtos de violência, doenças mentais crônicas e vícios, mesmo entre os jovens. Nessa articulação, estão sendo discutidos controles éticos sobre a ciência da informação e a genética, que seguem se desenvolvendo de forma rápida.

Problemas desafiadores em escala global, na dimensão da humanidade, demandam a aplicação de resultados de muitos campos de estudo. A chave para tudo é o revivescer da sabedoria e da criatividade que nos permite fazer pleno uso de nossa herança intelectual. Em todos esses esforços, a religião tem a missão de empoderar o espírito humano e de elevar nossos valores morais e éticos.

Unger: O senhor destacou detalhadamente o caminho pelo qual a religião, em seu entendimento pleno do tema, pode ajudar a abrir os caminhos para um mundo pacífico no qual a humanidade e a natureza são reconhecidas de forma equitativa. Não há dúvida de que a religião tem o poder de realizar isso.

Ikeda: A civilização do século 21 deve ser uma civilização do diálogo, assim como propôs meu amigo, professor de Harvard, Tu Weiming. Ele é ativo em muitas áreas. Por exemplo, em acordo com o “Ano do Diálogo entre Civilizações”, das Nações Unidas, em 2001, ele discursou sobre a civilização confucionista em uma reunião no Painel de Alto Nível de Pessoas Eminentes, convocado pelo secretário-geral da ONU [na época], Kofi Annan. E o professor Tu definiu diálogo como um poderoso mecanismo para se eliminar as contradições e colisões interculturais e insistiu que devemos reconhecer e respeitar os valores e as condições dos demais, enquanto aprendemos uns com os outros e nos beneficiamos dessa interação. Por assumir a liderança no diálogo inter-religioso, o senhor agiu de acordo com tais admoestações.

Unger: O diálogo inter-religioso se tornará a pedra angular de toda uma civilização. Esta nossa discussão é prova de que o diálogo e a cooperação mútua entre todas as religiões são possíveis e desejadas por toda a humanidade. O diálogo entre budismo e cristianismo e entre as quatro principais religiões inspirou minha determinação para me juntar ao senhor a continuar a falar claramente sobre a dignidade da vida, o respeito pela humanidade e a paz.

Notas:

1. SCOOP. UN2K: Indonesian President Abdurrahman Wahid [UN2K: Presidente Indonésio Abdurrahman Wahid]. Disponível em: http://www.scoop.co.nz/stories/WO0009/S00089/un2k-indonesian-president-abdurrahman-wahid.htm. Acesso em: 27 out. 2020.

2. The Vimalakirti Sutra [O Sutra Vimalakirti]. Tradução: Burton Watson. Nova York: Columbia University Press, 1997. p. 65.

3. DAISHONIN, Nichiren. The Record of the Orally Transmitted Teachings [Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente]. Tóquio: Soka Gakkai, 2004. p. 138.

4. PECCEI, Aurelio; IKEDA, Daisaku. Before it’s too Late [Antes que seja Tarde Demais]. GAGE, Ricard (ed.). Londres: I. B. Tauris, 2009. p. 92.

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