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Romper barreiras: Capítulo 1 — parte 1

Um diálogo sobre música, budismo e felicidade

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19/01/2019

Romper barreiras: Capítulo 1 — parte 1
O jazz nasce do povo

Ikeda: O diálogo é uma melodia criada entre corações. Estou ansioso para criar esta música do coração com meus dois amigos, jazzistas mundialmente renomados, Herbie Hancock e Wayne Shorter. Vocês são ar­tistas de primeira categoria. Ambos ganharam inúmeros prêmios Grammy por seu trabalho excepcional.

Enquanto se apresentavam pelo mundo, empenharam-se constantemente pela paz. Suas contribuições admiráveis são fonte de grande orgulho para os membros da SGI, não apenas em seu país, Estados Unidos, como também no mundo inteiro.

Hancock: Muito obrigado. Estou verdadeiramente feliz por fazer parte deste diálogo. Para Wayne e eu, é uma grande honra com significado ainda mais especial por termos a oportunidade de conversar com o senhor não apenas sobre o budismo, mas sobre jazz, música à qual dedicamos muitos anos de nossa vida explorando e apresentando ao mundo.

Shorter: Sinto que Ikeda sensei está criando um novo modelo de diálogo para o mundo. A coragem que o senhor demonstra ao promovê-lo por uma nova era expande o horizonte de muitas pessoas.

Ikeda: O povo americano sente muito orgulho do jazz, que se originou nos Estados Unidos. Jim Garrison, estudioso da Virginia Tech, propôs que haveria quatro grandes tesouros espirituais nos Estados Unidos: os escritos de Ralph Waldo Emerson, filósofo da Renascença Americana, a filosofia educacional de John Dewey, a luta pelos direitos civis dos negros do Dr. Martin Luther King Jr., e o Jazz, que nasceu da vida do povo.

Já discuti com especialistas sobre a vida e a filosofia dos três primeiros1 — Emerson, Dewey e King —, e agora é o momento de falar sobre o jazz. Passaram-se mais de cinquenta anos desde que fiz minha primeira viagem aos Estados Unidos, e sinto que nossa conversa será, de certa forma, uma maneira de materializar meu longo relacionamento com os amigos de lá.

Hoje, artistas que praticam o Budismo Nichiren estão ativos em todo o mundo. Por meio do nosso diálogo, quero explorar com vocês o brilhante futuro de um movimento cultural baseado no budismo.

Como vocês têm se dedicado firme e sinceramente às atividades da SGI durante anos, estou seguro de que suas colocações e experiências referentes ao kosen-rufu2 — nosso movimento popular pela paz — servirão como fonte de poderoso incentivo para muitos.

Para começar, vamos explorar o que é jazz e como se originou. Com o vibrante espírito de um jovem, gostaria de aprender o máximo possível sobre jazz.

Hancock: Sinto que sou eu quem está assistindo uma aula especial com o senhor, Ikeda sensei. Tivemos a grande honra de estar presentes a reuniões da SGI em que o senhor palestrou. Eu tive a oportunidade de observar a natureza de improvisação de suas falas, o que é muito parecido com o espírito do jazz.

Shorter: Quando ouvi jazz pela primeira vez no rádio, aos 15 anos, senti como se os músicos estivessem aproveitando cada oportunidade e buscando a perfeição ao mesmo tempo. Quando tentei fazer o mesmo durante a juventude, percebi que não estava preparado para improvisar verdadeiramente como os pioneiros do Bebop ou do jazz moderno3 faziam. Notei que apenas praticar sozinho não é o suficiente para um músico ser verdadeiro a expressões criativas de maneira que esteja livre de segundas intenções e manipulações.

Ikeda: Improvisação — habilidade de criar livremente e no ato — requer comprometimento e convicção absolutos. Nichiren Daishonin, pensador e reformista budista japonês, escreveu: “Como a vida não passa de um momento, o Buda expôs os benefícios que advêm de um único momento de júbilo [ao ouvir o Sutra do Lótus]” (CEND, v. I, p. 65).

Agora, a cada momento, demonstramos a sabedoria e o poder transbordantes de alegria. Ao mesmo tempo, uma pessoa precisa de treinamento intenso para praticar e cultivar a habilidade de improvisar com sucesso. Ao me preparar para um diálogo como este, estudo com atenção meu parceiro ou parceiros — tanto por meu profundo respeito a eles, como também por meu sincero desejo de realizar um profundo intercâmbio.

Após esses preparativos, o diálogo passa a ser como se estivesse tocando de ouvido. Quando um diálogo ou uma apresentação musical se iniciam, cada momento que se desenrola requer concentração absoluta. O budismo enfatiza a “sabedoria da verdade, que funciona em harmonia com as circunstâncias mutáveis” (OTT, p. 177). Ao fazer uso dessa sabedoria, a pessoa consegue criar o mais elevado valor possível. Essa é a maravilha da improvisação.

O mais importante em um diálogo são a confiança e a simpatia — acreditar que, com quem estiver conversando, seja um líder de uma nação, um cidadão comum ou alguém com uma cultura de um país desconhecido por você, podem se comunicar e alcançar um entendimento enquanto seres humanos. Esse é o espírito que tenho sempre encontrado e sobre o qual tenho conversado com as pessoas, para construir pontes de paz e de amizade.

Quando visitei a China em 1974, por exemplo, recordo-me de ter encontrado uma menininha adorável. Ela me perguntou de onde eu vinha, e respondi que era do Japão e que viajei toda essa distância especialmente para me encontrar com ela. A garota então sorriu.

Hancock: Seus diálogos de espírito elevado têm muito em comum com o jazz, que por sua vez depende do diálogo. Esse é um conceito conhecido entre os jazzistas; é algo que valorizamos, algo que experimentamos todas as vezes que tocamos. Jazz é também um estilo de música muito espiritual. O diálogo que acontece não é leviano ou casual.

O diálogo incorporado ao jazz é bastante sério, mesmo quando é divertido. De muitas formas, é uma celebração à alegria da vida. É um método puro e direto de comunicação, um clamor que brota das profundezas da emoção humana.

Shorter: Em 1961, no Apollo Theater, em Harlem [Nova York, Estados Unidos], conheci um senhor mais velho que me disse algo que me causou grande impacto: “Ouço as coisas que vocês, jovens rapazes, estão tocando. Eu escuto. Não entendo o que vocês estão fazendo, mas certamente me faz sentir bem!”. Com a essência de improviso do jazz, um artista é desafiado a criar — com autenticidade, visão e coragem — um diálogo de inspiração e compaixão que abraça a dignidade e o valor de toda a humanidade.

Um novo som envolve o mundo

Hancock: O jazz cresceu em meio ao sistema escravista nos Estados Unidos e se desenvolveu a partir das influências de blues, música gospel e cultura africana. Mas é uma nova forma de expressão que ultrapassa o espírito de uma nação em particular. A prova disso é que as pessoas ao redor do mundo amam o jazz. É especialmente popular no Japão — país muito distante tanto da África como dos Estados Unidos.

Esse é um presente que os afro-americanos deram ao mundo e que surgiu da opressão contra eles. O sofrimento deles deu a luz a esse estilo musical. Jazz já não se limita mais a uma expressão de dor; expandiu-se além disso. Transformaram o sofrimento em alegria por meio da criatividade, em vez de transformá-lo em vingança — transformaram o veneno em remédio.4

Compartilhar e estar aberto também são características do jazz. Ele adota de maneira entusiasmada influências de outras culturas e gêneros musicais, ao mesmo tempo em que os influencia fortemente. Essas peculiaridades — compartilhar, ser aberto e transformar o sofrimento em alegria — são o coração da espiritualidade humana.

Ikeda: Não consigo deixar de notar essa abertura como um poder incrível do jazz, e da música em geral. O que dá origem a essas qualidades e o que é a fonte de apelo e energia do jazz? Quando alguém explora a cultura do jazz com toda a sinceridade, é obrigado a descobrir uma expressão do espírito que pulsa na vida de todas as pessoas. O budismo nos desperta para essa suprema e nobre vida que reside nas profundezas do nosso ser.

Shorter: O budismo tem me ensinado que a cultura — no sentido de talento artístico — existe em todas as pessoas. Deve ser manifestado por meio do despertar de toda a vida humana.

Ikeda sensei, como você se encontrou com jazz pela primeira vez?

Ikeda: Ouvi jazz pela primeira vez durante a juventude, logo após a Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, o jazz era visto como “música inimiga” e era proibido tocar e ouvir o ritmo. Mas em setembro de 1945, um mês após a derrota do Japão, as rádios começaram a transmitir músicos tocando jazz. Eu tinha 17 anos na época, e isso causou uma impressão vívida em mim. Para os japoneses, que sobreviveram aos tempos difíceis e sofridos da guerra, era um som que proclamava a chegada de uma nova e libertadora época. Foi um período em que estávamos reconstruindo nossa vida energeticamente, e o jazz se tornou fonte de grande encorajamento para nós.

Em meio à corrente de reformas apresentadas pela liderança americana durante a ocupação dos Aliados, a liberdade de crença religiosa finalmente foi estabelecida no Japão. Meu mestre, Josei Toda, compreendeu o significado desse desenvolvimento e a dívida de gratidão que tinha com os Estados Unidos.

O ponto é que nada é mais poderoso do que a cultura, que nos torna inteiramente humanos. Ela ilumina a sociedade e a transforma positivamente. É por isso que a Soka Gakkai tem focado na importância da cultura.

Hancock: De certa maneira, a cultura é a voz do povo, uma expressão de um indivíduo, bem como de todo o ambiente social da qual esse indivíduo pertence. Às vezes, levantam a voz em oposição a condições miseráveis. Outras vezes, expressa esperança por um futuro brilhante. Jazz representa a liberdade. Até mesmo o governo mais opressor não é capaz de reprimir a liberdade do coração.

Shorter: Jazz é um processo criativo, um diálogo improvisado que pode ultrapassar constrangimentos superficiais de dogmas, decretos e mandatos.

Ikeda: Representa a liberdade essencial do espírito humano. Nichiren Daishonin escreve: “Pode parecer que, por ter nascido nos domínios do governante, eu deva segui-lo em minhas ações. Porém, jamais o seguirei em meu coração” (CEND, v. I, p. 605). O budismo ensina a mais elevada liberdade da vida, uma liberdade que é irrestrita e destemida.

A história da Soka Gakkai, na qual incontáveis indivíduos conquistaram sua liberdade espiritual, esteve intimamente ligada a muitas canções. Toda sensei costumava dizer que, quando um povo prospera, há uma canção. O desenvolvimento da Soka Gakkai, adicionou ele, também foi acompanhado do surgimento de muitas novas e inspiradoras canções. Tais canções fazem aflorar nossa coragem e esperança. Nossa tradição de apresentar canções da Soka Gakkai tem encorajado nossos membros que encaram desafios e permitido que se levantem e lutem. Com canções como fonte de alegria na vida, nossos membros têm conquistado grandes progressos.

Shorter: Gostaria de tocar canções que falassem sobre a esperança das pessoas, de sonhos pelos quais vale a pena lutar — um sentimento de “jamais desistir” expresso em forma de música de maneira que não se encontra facilmente no mercado atual de recompensa instantânea, uma nova música que desafia as ilusões da fama e do sucesso.

Hancock: A coisa mais importante é o propósito. O propósito é, na realidade, dividir suas descobertas com o público — ter a coragem de mostrá-las, apresentá-las de maneira autêntica diretamente ao público.

Ikeda: Essa é a essência da verdadeira arte. Nichiren Daishonin nos ensina: “‘Alegria’ significa que tanto a própria pessoa como as outras, juntas, experimentam alegria (...). Então, tanto a própria pessoa como as outras sentirão alegria pela posse da sabedoria e compaixão” (OTT, p. 146). A alegria é algo a se compartilhar, compartilhá-la a faz crescer.

Arte não precisa ser intimidadora. Pode nos encorajar a nos tornar mais abertos e a compartilhar a alegria com os demais. Estou seguro de que a paixão na arte de vocês reverbera junto com seus ouvintes e conversa profundamente com eles.

Hancock: Mesmo que o jazz tenha suas raízes na experiência dos afro-americanos, meu sentimento sempre tem sido de que o jazz se desenvolveu a partir de um aspecto nobre do espírito humano, que é comum a todas as pessoas — a habilidade de reagir à pior das circunstâncias e criar algo de grande valor ou, como o budismo diz, transformar o veneno em remédio.

É também uma espécie de vingança, mas de maneira diferente, contra a escuridão fundamental, a ilusão mais profundamente enraizada e inerente à vida humana. É um ataque contra isso. Acredito que é o que essa música realmente representa. Descobri esse importante significado por meio da prática do Budismo Nichiren, que ensina que a vida é uma batalha contínua entre a iluminação e a escuridão inata de cada pessoa.

Ikeda: Jazz realmente representa um caminho de vida indomável.

No início, a Soka Gakkai era menosprezada e chamada de organização de pobres e doentes. Foi nesse momento que Toda sensei — embasado no princípio budista da dignidade da vida e motivado a eliminar toda a miséria do nosso mundo — encorajou incansável e calorosamente uma pessoa em sofrimento após a outra.

Eu me levantei como discípulo, compartilhando seus objetivos, e trabalhei junto com nobres pessoas comuns para construir a Soka Gakkai que existe hoje. Agora, estou ansioso para transmitir o espírito desses dias pioneiros aos jovens.

O budismo ensina que os desejos mundanos levam à iluminação, e que os sofrimentos da vida e da morte levam ao nirvana (iluminação). Problemas e sofrimentos são fonte de crescimento, a chave para atingir um estado de vida grande e expansivo. Ao continuar a recitar Nam-myoho-renge-kyo, ou a Lei suprema da vida e do universo, e “considerar tanto o sofrimento quanto a alegria como fatos da vida” (CEND, v. I, p. 713), conseguimos viver com “a maior de todas as alegrias” (OTT, p. 212).

Exatamente porque o jazz nasceu a partir de sofrimentos e atribulações, ele possui um poder de nos comover e revitalizar. Esse é o poder máximo da cultura.

Shorter: Num mundo em que a recompensa imediata é priorizada, o desafio do jazz é abrir os caminhos para pessoas de origens e culturas diversas interagirem com mais humanismo, humildade, mente aberta e confiança.

Hancock: O jazz ainda está no processo de desenvolvimento. É interessante que o jazz continua a sobreviver, apesar dos bons e maus tempos. Nesse sentido, particularmente acredito que o jazz durará por toda a eternidade.

Shorter: Costumo dizer que tocar jazz faz despertar o humanismo, nos apresenta o desafio de não saber o que está por vir, e é justamente disso que se trata a improvisação. Há o elemento do medo do desconhecido, o medo de algo diferente, ou o medo de sair da zona de conforto. Hesitação e resistência até certo ponto criam o monstro chamado “medo”.

Subir ao palco é colocar-se em uma posição de vulnerabilidade — nós nos esquecemos das aulas de música. Queremos representar os momentos de desafios — para que o público possa assistir à nossa luta e então nos ver superando esses momentos e criando a vitória, atingindo algo que transcende a efemeridade e imprevisibilidade da vida. A tragédia é temporária. Mas a missão é perene. Tocar jazz nos traz coragem para desafiar e superar as dificuldades até mesmo sob circunstâncias inusitadas.

Ikeda: Isso é maravilhoso e muito comovente. Tanto a vida como a arte são uma luta — uma luta de constante autoaprimoramento e criação de valor. Uma pessoa precisa de coragem para vencer em suas batalhas. Vocês dois superaram numerosos desafios e sofrimentos. Demonstraram a grandiosidade da arma individual e cultural do jazz.

Nossa época se torna cada vez mais conflituosa. Uma contínua série de crises inesperadas requer nossa resposta imediata — uma apresentação de improviso do mais alto nível, por assim dizer. Por isso, acredito ser tão importante que os jovens surjam após vocês dois, monarcas da arte e da vida, ao longo do inabalável, corajoso e vitorioso caminho da criação de valor.

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