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Reflexões Sobre a NRH

[67] Minha primeira visita ao Havaí

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01/06/2020

[67] Minha primeira visita ao Havaí

“‘O que é um caminho?’ Um caminho é construído andando por onde ninguém jamais passou, abrindo uma trilha entre matas e espinhos.” Uma noite, pouco antes de assumir como terceiro presidente da Soka Gakkai, registrei em meu diário essas famosas palavras do grande escritor chinês Lu Xun, como uma espécie de desafio às novas fronteiras que aguardavam ser abertas diante de mim.

***

Naquela manhã, logo cedo, a praia reluzia serena como uma amiga gentil. Acariciado pela suave brisa, observei o oceano. Quanta beleza! Virei-me para avistar além das palmeiras o pico do Monte Cabeça de Diamante, que se erguia com elevada aspiração, emitindo um brilho dourado sob a luz matinal. Era meu primeiro amanhecer no Havaí, 2 de outubro de 1960, meu primeiro passo rumo ao kosen-rufu mundial.

No ano anterior, o Havaí se tornara o quinquagésimo estado norte-americano e acabara de inaugurar uma nova fase em sua história. Eu também iniciava ali uma nova etapa.

***

Só estive nesse país por apenas trinta horas, mas nesse espaço de tempo, formei a primeira comunidade da Soka Gakkai fora do Japão, estabelecendo uma organização que continuaria para celebrar o futuro da paz, da felicidade e da alegria que todos desejavam.

Em sua maioria, as pessoas com quem me encontrei eram nipo-americanas. Todas levavam no coração uma história de grande tristeza e sofrimento. Algumas eram descendentes de segunda geração de nipo-americanos, cuja vida havia mudado radicalmente devido à Segunda Guerra Mundial. Muitas mulheres choravam todos os dias, pois desejavam regressar ao Japão. Falei-lhes sobre a grandiosidade da fé, fonte infinita de força e de inesgotável esperança. Gravei no coração de cada uma delas o propósito da nossa prática budista e da nossa missão como membros da Soka Gakkai: viver vitoriosos, com alegria e sem temor, com a convicção de que triunfamos sobre a ignorância.

Iniciei uma batalha pela paz não com armas de destruição, mas por meio do diálogo; uma luta para combater a infelicidade de cada indivíduo e para acender a chama da esperança e da coragem em seu coração.

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Pedi ao motorista que nos conduzisse a Pearl Harbor, a oeste de Honolulu. Na manhã de 7 de dezembro de 1941, a força aérea japonesa atacou essa base aeronaval norte-americana e afundou quatro navios de guerra, acertando um golpe devastador nas forças dos Estados Unidos. Foi o início de uma guerra absurda, trágica e aniquiladora entre Estados Unidos e Japão. Expressei aos membros que nos acompanhavam minha crença de que o único caminho para erradicar a guerra — um conflito que trouxe tristeza e dor a tantas mulheres e crianças, um ato irracional que dizimou vidas com fria e cruel precisão — era propagar pelo mundo a grandiosa filosofia do Budismo de Nichiren Daishonin.

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No dia 15 de janeiro de 1981, 21 anos depois da minha primeira visita ao Havaí, fui mais uma vez a esse trágico lugar e me dirigi ao Memorial USS Arizona, no meio do porto. O USS Arizona foi o navio que mais danos sofreu com o ataque da força aérea japonesa, e foi determinado que a embarcação permaneceria no fundo do mar como homenagem aos 1.117 marinheiros que perderam a vida a bordo. O prístino monumento branco construído sobre o mar cobre a área em que se encontra o navio abatido. Uma pequena quantidade de óleo continua a subir à superfície até hoje, como se fosse uma mensagem enviada pela embarcação para que nos lembremos da tragédia.

A vida de muitos jovens decentes e promissores foi destruída pelas mãos do governo japonês e dos líderes militares que iniciaram a guerra. O silencioso oceano, iluminado pelo julgamento da história, parecia condenar implacavelmente os autores da guerra por sua perversidade insana.

Recito daimoku

pelo repouso dos falecidos

em Pearl Harbor.

Este dia, este momento

que jamais esquecerei enquanto viver.

Dediquei esse poema às pessoas que me conduziram pelo Memorial Arizona.

***

As pessoas do mundo inteiro veem o Havaí como um arquipélago da paz eterna.

Em 1960, também fui ao Cemitério Memorial Nacional do Pacífico, localizado em Punchbowl, uma cratera vulcânica perto de Honolulu. Ali, eu vi túmulos de nipo-americanos que haviam lutado e perdido a vida pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Conforme escrevi em meu romance, o ataque japonês a Pearl Harbor destruiu por completo a confiança que eles haviam se esforçado tanto para conquistar como novos cidadãos. Isso levou outros americanos a vê-los como inimigos, e ficaram sujeitos ao preconceito e à discriminação.

Para provar a lealdade, os nipo-americanos nascidos no Havaí prestaram juramento aos Estados Unidos e lançaram-se à guerra, combatendo em unidades como o 100º Batalhão de Infantaria e o 442º Regimento de Combate, este último integrado unicamente por voluntários da segunda geração de nipo-americanos. Decididos a investir contra o inimigo, lançaram-se com tudo em meio à chuva de balas, para demonstrar com sua ousadia, bravura e lealdade que eram capazes de sacrificar-se por sua nação e assim recuperar a confiança do povo norte-americano.

Em 1985, anos depois da minha primeira visita, ofereci uma coroa de flores e a depositei no Cemitério Memorial Nacional em Punchbowl e, nessa ocasião, nove veteranos do 442º Regime de Combate, que eram membros da SGI, assistiram à cerimônia. A figura orgulhosa e valente dessas pessoas permanece gravada em meu coração.

***

O primeiro responsável pela Comunidade Havaí foi o nipo-americano Harry Hirama. Jamais o esquecerei, tampouco o primeiro responsável pelo Distrito Havaí, Wataru Kawamoto.

Hirama era robusto e possuía um olhar generoso. Atuou mais tarde como líder da Divisão Masculina de Jovens. Era muito querido e merecedor da confiança de todos, especialmente do povo havaiano. Sempre que aparecia, era recebido com alegria. Quando viam seu semblante, as pessoas sorriam.

Ele liderou os jovens defensores da paz nos primórdios da Soka Gakkai no Havaí. Empreendeu uma verdadeira batalha pelo kosen-rufu sem armas e sem violência e logo seu grupo tornou-se conhecido como Grupo Abacaxi. Hirama havia passado pelos horrores da guerra e estava fortemente comprometido com a paz. O Grupo Abacaxi brilhava com orgulho como a força havaiana pela paz da Lei Mística. Seus integrantes adotaram um uniforme composto por camisa branca e gravata preta com um prendedor em forma de um abacaxi.

Em uma ocasião, 27 membros do grupo visitaram o Japão e deixaram os jovens japoneses admirados com seu espírito e sua força. O Grupo Abacaxi criou muitos seres humanos de valor dedicados à paz que estão se empenhando com afinco pelo kosen-rufu, como T. J. Ride e Tom Hara.

***

No ano que vem completarão quarenta anos desde a minha primeira visita ao Havaí. Nesse intervalo, viajei dezoito vezes a essas terras onde o Leste se encontra com o Oeste.

Aloha! Quantas vezes disse e ouvi essa maravilhosa saudação? Aloha é uma expressão de amor pela humanidade, de benevolência, de tolerância, de bondade e solidariedade. O “espírito Aloha” é o espírito da paz e o coração do próprio Havaí, esse arquipélago arco-íris onde pessoas de diferentes raças e formações étnicas vivem em harmonia. Não seria esse o triunfo de uma sociedade cujo humanismo a torna imune ao vírus letal da guerra e a adorna com a mais preciosa das joias?

Uma nova e esplendorosa correnteza para a paz, conhecida mundialmente como kosen-rufu, começou ali, no Havaí. Sem dúvida, essa honra profundamente significativa brilhará eternamente nos anais da SGI.

Que o Havaí ilumine o século 20 com a luz da esperança e que resplandeça para sempre!

Nota:

1. Ensaio publicado originalmente no Seikyo Shimbun, edição de 1o de junho de 1999.

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