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Romper barreiras — Um diálogo sobre música, budismo e felicidade

Capítulo 8, Parte 2

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01/06/2020

Romper barreiras — Um diálogo sobre música, budismo e felicidade

Transparência e valorização

Ikeda: Na primavera de 2002, encontrei-me com o líder islâmico Abdurrahman Wahid, ex-presidente da República da Indonésia. Começamos então um novo diálogo, que foi publicado em japonês, indonésio e inglês com o título A Sabedoria da Tolerância: Uma Filosofia de Generosidade e Paz. Ele e eu compartilhamos forte convicção na importância do diálogo entre religiões. Também me lembro carinhosamente do grande amor do presidente Wahid pela música.

O diálogo entre pessoas que apreciam a arte e a cultura pode transcender todas as diferenças e unir corações — essa foi a conclusão não só do presidente Wahid, mas dos pensadores mundiais com quem conversei.

Hancock: Precisamos incentivar as pessoas, especialmente nossos companheiros norte-americanos, a valorizar os povos e as culturas do mundo. Por conta de os Estados Unidos serem um país composto por imigrantes, vemos, se olharmos para nossos ancestrais, que todas as pessoas do restante do mundo são, na verdade, nossos irmãos e nossas irmãs. E podemos identificar nossa própria cultura na cultura deles. É nosso trabalho estimular os norte-americanos a abrir o coração e a mente, estimulá-los a ser compreensivos, a dialogar e a valorizar aqueles que não estão inseridos nas mesmas comunidades que eles.

Ikeda: “Transparência” e “valorização” são duas palavras-chave, não são?

John Coltrane também valorizou a compreensão mútua em todas as situações: “Compreensão é tudo. Ao falar com um crítico, tente compreendê-lo, e ele pode tentar compreender a parte do jogo em que você está inserido. Com esse entendimento, não há o que não possa ser conquistado. Todos se beneficiarão”.1

A dedicação sincera ao diálogo — o trabalho persistente e imperturbável de conduzir o diálogo diante de probabilidades aparentemente sombrias — é o único caminho para dar fim ao ciclo de violência e de retaliação. O diálogo é o produto da vontade humana. A não violência é um movimento baseado na verdade e é evidência da verdadeira força.

Shorter: Como o senhor disse, Ikeda sensei, devemos acreditar na bondade inata da humanidade e começar a falar uns com os outros. Para isso, temos de elevar nosso espírito. Então, quando o diálogo acontece, algo positivo se revela.

Tenho forte impressão de que a sociedade está se movendo no sentido de escolher o diálogo em vez da violência. É ainda melhor quando o medo não é o fator que faz as pessoas buscarem o diálogo, porque se o medo ou o julgamento se fizerem presentes na conversa, os participantes não mais ouvirão uns aos outros. E o diálogo deixa de ser produtivo. 

Ikeda: Suas palavras revelam uma percepção aguçada da verdadeira natureza do diálogo. Assim como John F. Kennedy disse em seu discurso inaugural: “Que nunca negociemos a partir do temor. Mas que nunca temamos negociar”. Ao substituir “negociar” por “dialogar”, essa frase nos apresenta um dos princípios fundamentais do diálogo.

O sucesso do diálogo não está nas mãos da outra pessoa, e sim nas nossas. Devemos deixar de lado todos os medos e corajosamente abrir o coração e falar com os participantes de uma posição de igualdade e de respeito.

Shorter: Quando você está frente a frente com uma pessoa que percebia como inimiga, e ambos se olham diretamente nos olhos, começa a enxergar além das falsas suposições que tinham um do outro. Quando interage com aquela pessoa e começa a vê-la como um ser humano, assim como você é, algo acontece. Você começa a enxergar alternativas à rivalidade. Abre-se o caminho para a transparência.

Ikeda: Assim como o Sr. Hancock disse antes, os Estados Unidos são uma nação ricamente diversa, construída por pessoas das mais variadas origens culturais. Vejo os Estados Unidos como um país que brilha como um arco-íris, rico e diverso — livre e despretensioso, alegre e positivo, e brilhantemente criativo.

O 11 de Setembro [de 2001] aconteceu oito dias depois da primeira cerimônia de ingresso da Universidade Soka da América (SUA). Contra tal contexto, a primeira aula refletiu sobre o significado de um de seus lemas — “Ser Cidadão Global em Solidariedade pela Paz”. Eles deram passos poderosos ao afirmarem sua missão de conquistar a paz.

Dois irmãos que eram alunos da SUA perderam seu amado pai no 11 de Setembro. Enquanto apoiavam a mãe em luto, eles se recusaram a ser derrotados, dedicaram-se aos estudos, formaram-se e estão seguindo carreira em pesquisa acadêmica e educação. Estou encantado com a força e a positividade que essa família demonstrou diante de sua tragédia pessoal, por meio da vitória estrondosa que conquistaram.

Ambos os senhores visitaram a SUA muitas vezes para se encontrar e conversar com os alunos.

Shorter: Somos gratos ao senhor por sempre enviar “raios de esperança” para nós e para os jovens da SUA e da SGI-Estados Unidos. Acredito que os Estados Unidos precisam incentivar seus jovens. O futuro do país está nas mãos da nossa juventude. Também acredito que os Estados Unidos, um dos países mais jovens dentro das maiores nações, com pouco mais de duzentos anos, terão papel jovial no palco do mundo.

Ikeda: Também acredito nisso. Os membros da SGI-Estados Unidos — em particular, os jovens — estão ativamente promovendo a exposição Construir uma Cultura de Paz para as Crianças do Mundo2 e a campanha Vencer a Violência,3 compartilhando a filosofia da revolução humana e da dignidade da vida por todo o país. Diversas escolas públicas adotaram um “currículo de não violência” com base nos materiais dessa campanha. 

Os jovens estão expandindo uma rede de pessoas que podem invocar uma vibrante força vital diante de dificuldades e, enquanto desenvolvem seu potencial ao máximo, estão corajosamente respondendo aos desafios do mundo. Encaro isso como uma característica do grandioso espírito norte-americano e sinto grande admiração e afeto por essa disposição da nação.

Uma América do Norte ideal 

Shorter: Acredito que os Estados Unidos devam proteger o propósito e o espírito de sua Constituição. Os jovens norte-americanos precisam entender que a Constituição dos Estados Unidos possui pontos que estão abertos à interpretação e podem ser fonte de discórdia, e que essas questões estão presentes desde a origem até o atual discurso político.

Tais questões exigem que pensemos por nós mesmos e estimulam o diálogo. Essa característica da Constituição foi incluída intencionalmente pelos fundadores. Li que a origem da ideia sobre o diálogo veio da sabedoria dos nativos americanos que, quando tinham desentendimentos, realizavam jogos para resolver suas diferenças.

Ikeda: Os Estados Unidos são um país jovial. Sempre avançando com determinação, do atual estado imperfeito das questões para uma perfeição eterna — essa energia, para mim, é o espírito do pioneirismo dinâmico. Da mesma forma que as pessoas amam um espírito jovial, também me interesso pelo espírito desimpedido e de avanço dos Estados Unidos. Sinto que a disposição dos fundadores em adotar parte da sabedoria dos nativos norte-americanos mostra um entusiasmo pelo aprendizado que também é característico dos jovens.

Hancock: Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos são um país que irradia esperança ao mundo, ele possui um passado bastante discutível. Fundado como um país de imigrantes, os colonos perpetraram atrocidades em massa contra os habitantes originais, os nativos norte-americanos, importaram escravos e adotaram a escravidão. Os Estados Unidos possuem uma história bastante manchada.

Apesar disso, ao longo dos anos, a América do Norte começou a se redimir de várias formas. Como resultado, um novo tipo de cultura emergiu.

Por exemplo, o tecido da cultura norte-americana foi elaborado a partir de tendências da comunidade afro-americana, da música ao idioma e às roupas. Essas contribuições têm se tornado profundamente integradas à experiência norte-americana.

A grandiosidade dos Estados Unidos está refletida em sua abertura para influências culturais, possibilitando até mesmo aqueles que estão nas posições mais baixas do totem social se tornarem líderes e participarem da formação cultural do país. Agora temos, inclusive, um presidente cujo pai era africano [o ex-presidente Barack Obama]. Apesar de ter um presidente afro-americano não ser um fim em si, é uma clara mensagem ao mundo de que os Estados Unidos ainda carregam em si um grande potencial.   

Ikeda: Os Estados Unidos parecem ter uma fonte inesgotável de energia criativa. Desde a minha juventude, sempre apreciei muito as obras de Walt Whitman, produto dessa cultura primordial e símbolo do seu dinamismo. A América do Norte presente na poesia de Whitman é uma sociedade ideal, uma sociedade que visa o futuro.

Canto o Eu, a simples pessoa em si,

mas pronuncio a palavra democrática,

a palavra Massas.4

***

Não podemos nos demorar aqui,

Devemos marchar, meus queridos;

precisamos suportar o impacto do perigo.5

Whitman visualiza uma solidariedade popular construída a partir da democracia e da autonomia. Ele clama por avanço confiante, incessante, e por uma luta indomável para conquistá-lo. E ele dá voz e apela, com palavras que todos conseguem entender, à conquista do ideal e da missão norte-americana.

Os Estados Unidos sempre avançaram e retrocederam entre “a América do Norte ideal” e o atual estado da União. Por ter passado pela tragédia histórica do 11 de Setembro, o país atualmente enfrenta vários problemas, mas tenho certeza de que continuará a avançar rumo aos ideais articulados por Whitman.

Hancock: Assim como a nação em que se origina, cada obra do jazz está, de certa forma, inacabada. Sempre que uma apresentação de jazz é realizada, é um desafio conduzi-la a uma conclusão. Essa é a razão pela qual as pessoas são tão atraídas por essa forma de arte.

Shorter: Na América do Norte ideal, descobrimos o que foi perdido, negligenciado ou ignorado. A interação cultural promovida pela música, pela atuação e pela palavra escrita, incluindo a poesia, tem importante papel. Por meio dessas formas de expressão cultural podemos enxergar uns aos outros verdadeiramente e visualizar nosso ideal de país. A imagem dos Estados Unidos ideal deve ser refletida na realidade da vida em sociedade.

Mas será que a realidade se iguala à nossa imagem ideal? Infelizmente não. Nossa realidade não reflete o país que desejamos. Por isso, devemos criar a América do Norte ideal que imaginamos.

O que vemos é, na verdade, a representação de nossa vida interior, de nossos pensamentos, palavras e ações. Por muitos anos, os norte-americanos tenderam a fugir da introspecção e da contemplação. Mas isso é apenas uma forma de encobrir e não compartilhar o tesouro abundante que existe em nosso coração.

Ikeda: Essa é uma observação muito importante.

Nichiren Daishonin ensina que “A partir deste único elemento da mente surge o domínio do meio ambiente” (WND, v. II, p. 843). O “único elemento da mente” humana pode mudar dramaticamente um país e uma sociedade. Como o senhor disse, Sr. Shorter, orações e ações para compartilhar o imenso “tesouro que existe em nosso coração” podem transformar, um passo de cada vez, a realidade atual na república da humanidade ideal.

Poesia e artes são meios para compartilhar o tesouro do coração. O Dr. Ed Folsom, um proeminente estudioso de Whitman, falou sobre a essência da poesia concebida por Whitman como possuidora do poder de inspirar um espírito de diálogo nas pessoas, transcendendo o tempo e a cultura.6 Whitman também defendia a necessidade de os Estados Unidos conquistarem uma “fusão dos Estados em uma identidade confiável, uma identidade moral e artística”.7

A arte nasce da luta interna, e também nos dá o poder para vencer essa batalha. Sem dúvida, a arte tem o poder de concretizar a América do Norte ideal e uma sociedade humana ideal.

Shorter: Essa é a minha esperança também. Acredito que a América do Norte tem a força para aproveitar este momento e assumir os problema enfrentados, a partir do levantar de cada um de nós e de aceitarmos a responsabilidade por nosso futuro comum. Essa é a imagem da América que visualizo.

Ikeda: Avançar rumo ao ideal é uma luta incessante e contínua.

Apresentei as seguintes estrofes de Whitman para os jovens em incontáveis ocasiões:

Avante! Por contendas e guerras!

A meta fixada não pode ser revogada.8

Inúmeros fenômenos do universo estão avançando. Não temos escolha senão avançar também. Parar é o mesmo que retroceder. O avanço alegre é a vitória, e aqueles que avançam vigorosamente são vitoriosos. Cada dia é um novo começo.

O grande poeta Langston Hughes, que admirava e respeitava Whitman, escreveu:

Que a América seja América de novo.

Que seja o sonho que costumava ser.9

Nunca desistir dos grandes sonhos, não importa quais obstáculos surjam, continuar a se esforçar até que se tornem realidade — esse é o indomável espírito da juventude que pulsa na América do Norte. A humanidade está entrando em uma era na qual a luz da esperança brilhará novamente a partir das profundezas do espírito juvenil. Oro para que a juventude da Soka Gakkai da América do Norte e do mundo emerja como dinâmica pioneira dessa era.

Hancock: A música The Light of Hope [A Luz da Esperança] contém os seguintes versos:

Nenhuma educação é maior

Que as provações e dificuldades

Lições duras da realidade.

Vamos à sociedade

E faremos nosso melhor

Para destruir a escuridão!

Nosso time teve de superar muitas dificuldades antes de The Imagine Project [Projeto Imagine] finalmente ser concluído. Por muitas vezes, pensei “Isso não vai dar certo”. Mas a cada vez, depois de recitar muito daimoku e ser incentivado pelos escritos de Nichiren Daishonin, finalmente transformamos o impossível em realidade. Depois de superar muitas dificuldades e ao ver nossos esforços se concretizando, esse trabalho me levou a muitas possibilidades emocionantes, tanto musical como humanamente falando. Nele vejo um caminho em que posso contribuir de muitas formas para a paz mundial.

Em sua música, o senhor transmite coragem e incentivo, e sua mensagem ressoa em nosso coração:

Ter uma vida

Engajada em nova realização

Com nosso coração

Sempre unido

Hoje vivemos

nosso juramento

Criando pontes de diálogo

Assim será feita a justiça

Notas:

1. Coltrane on Coltrane: The John Coltrane Interviews [Coltrane por Coltrane: As entrevistas de John Coltrane]. DEVITO, Chris (ed.). Chicago: A Cappella Books, 2010. p. 157.

2. A exposição Construir uma Cultura de Paz para as Crianças do Mundo une ideias de centenas de pessoas e organizações dedicadas a encontrar um caminho para a paz duradoura com o objetivo de inspirar a confiança de que uma cultura de paz é possível — e uma necessidade para a vida na Terra. Para mais informações, visite http://www.sgi-usa.org/newsandevents/  exhibitions/cultureofpeace.php.

3. A campanha Vencer a Violência é um movimento da SGI-Estados Unidos para ajudar a inspirar jovens ao redor do mundo a identificar e a erradicar a violência do seu dia a dia e de suas comunidades. É apoiada pela iniciativa “Cultura de Paz” das Nações Unidas. Para mais informações, visite www.vov.com.

4. WHITMAN, Walt. Leaves of Grass [Folhas de Relva]. Nova York: The Modern Library, 2001. p. 1.

5. Ibidem, p. 287.

6. Na segunda realização anual do Ikeda Forum for Intercultural Dialogue [Fórum Ikeda pelo Diálogo Intercultural] organizado pelo Boston Research Center for the 21st Century [Centro de Pesquisas para o Século XXI de Boston] (atualmente denominado Ikeda Center for Peace, Learning, and Dialogue [Centro Ikeda para a Paz, a Aprendizagem e o Diálogo]) em 30 de setembro de 2005.

7. WHITMAN, Walt. Democratic Vistas: And Other Papers [Paisagens Democráticas: E Outros Trabalhos]. Nova York: Walter Scott, 1888. p. 10.

8. WHITMAN, Walt. Leaves of Grass [Folhas de Relva], p. 197.

9. HUGHES, Langston. The Collected Works of Langston Hughes: The Poems, 1921-1940, Vol. 1 [Coletânea de Trabalhos de Langston Hughes: Poemas, 1921-1940, Vol. 1]. RAMPERSAD, Arnold (ed.). Colúmbia, MO: University of Missouri Press, 2001. p. 131.

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